Cardeal Ravasi defende “abertura ao diálogo” por parte da Igreja

| 2018-01-31

Outra das caraterísticas do mundo secularizado disse ser “a «bulimia» dos meios e a «anorexia» dos fins”.

Cardeal Ravasi (Foto: © Samuel Mendonça/Folha do Domingo)

O presidente do Conselho Pontifício para a Cultura defendeu no Algarve a “abertura ao diálogo” por parte da Igreja, advertindo ser preciso “entrar no horizonte do mundo e sujar as mãos e os pés”.

O cardeal Gianfranco Ravasi disse aos bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal que estão a realizar, em Albufeira, a sua formação anual, que esse objetivo implica a “escuta e o respeito do outro” por contraposição ao “fundamentalismo”.

Na formação com cerca de uma centena de participantes, o teólogo e biblista considerou que esse “encontro” implica “conservar a própria identidade”, “conhecer a própria mensagem” e “guardar o próprio anúncio” por contraposição ao “sincretismo”.

Na conferência sobre o tema “Diálogo: a nova postura de uma Igreja em saída”, o cardeal italiano lembrou, que “o Cristianismo não é uma religião de seita, que esteja protegida num oásis, fechada em si mesma”.

O orador, que aludiu ao “desencanto do mundo”, distinguiu três elementos na chamada secularização – secularismo, indiferença e secularidade -, considerando os dois primeiros como negativos e o terceiro como positivo.

Começando por se referir ao “conceito de verdade”, lembrou que “a verdade era objetiva”, tendo vindo a tornar-se “refinadamente subjetiva”.

Por outro lado, disse verificar-se neste contexto de “secularismo” o “primado técnico-científico”. “A verdade é-nos dada sob o ponto de vista científico”, constatou.

Outra das caraterísticas do mundo secularizado disse ser “a «bulimia» dos meios e a «anorexia» dos fins”.

Como último exemplo do secularismo indicou a “urbanização”, referindo-se ao “fenómeno das megalópoles”, onde disse haver uma “perda da individualidade numa espécie de mundo cinzento onde se desintegram as tradições, a identidade”. “O símbolo da casa da cidade é a porta blindada, atrás da qual vivem pessoas que quando morrem só são descobertas 15 dias depois”, lamentou.

Referindo-se à “indiferença”, aquele responsável da Santa Sé criticou o “apateísmo”, que disse ser “fruto da união da apatia e do ateísmo”. “Esta é uma das doenças mais graves do nosso tempo”, observou, aludindo também ao “descarte” como “algo que rompe a harmonia da sociedade”.

Por último, D. Gianfranco Ravasi abordou a secularidade, como “caraterística positiva do Cristianismo”, lembrando que “a Igreja deve respeitar as normas do Estado e as leis da economia, mas deve também ao mesmo tempo ser uma voz critica que defende os valores da pessoa”. Neste sentido criticou a “estatolatria” que promove a “redução da religião e da Igreja ao âmbito privado”.

Entre outros exemplos da “secularidade positiva” apontou a “leitura histórico-crítica e não fundamentalista da Bíblia”.

Hoje o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura apresentará uma segunda reflexão sobre o tema “A evangelização da Cultura: desafio e tarefa ingente”.

As jornadas de formação do clero do sul, promovidas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora, sobre o tema “Desafios para uma Igreja «Semper Renovanda» – Secularização, Diálogo, Discernimento”, prolongam-se até à próxima quinta-feira.

(Diocese Algarve) 

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