Comissão nacional Justiça e Paz lança apelo pela água

| 2017-12-01

Estaremos a caminho de ultrapassar os limites da Natureza

Tendo por base a seca que afeta Portugal, a Comissão Nacional de Justiça e Paz lançou um apelo onde questiona: “Que fizemos do Pássaro Azul que nos Transporta?”, tal qual fez um grupo de cientistas.

Na nota enviada à Angelus TV, a Comissão Nacional de Justiça e Paz define a água como “um bem precioso” que se está a “tornar raro” à medida que continuam “as agressões do ser humano a este bem comum”. “Também a “água viva indica a nossa sede do transcendente que é também vital para renovar o sentido da nossa presença no mundo: a água da qual somos todos responsáveis e que é causa de divisão e de guerra na humanidade” lê-se na mesma nota.

Num manifesto intitulado “Avisos dos Cientistas do Mundo à Humanidade”, cerca de 15.000 cientistas – homens e mulheres de mais de cem países – alerta, com “considerações academicamente sustentadas”, para aquilo que o Papa Francisco veementemente nos diz na Laudato Si’: a Terra e a Humanidade não suportarão, por muito mais tempo, o sofrimento que cada um e cada uma de nós lhes causamos…”

Já em 2008, um Relatório da Comissão Independente sobre a População e Qualidade de Vida publicado em diversas línguas, na secção intitulada “Respeitar os limites da capacidade de carga da Terra” sublinha “o caráter crucial da água tanto para a qualidade de vida como para a própria sobrevivência humana”, perguntando: “Terão o clima, os rios e oceanos de todo o mundo capacidade para enfrentarem, sem um colapso catastrófico, os padrões, presentes e futuros, de produção e consumo?

“Estaremos a caminho de ultrapassar os limites da Natureza e, se assim for, que poderemos fazer para nos mantermos dentro deles?”. Passados quase 30 anos sobreestas interpelações constatamos que estes factos se estão a passar, e mais cedo do que alguma vez esperaríamos” relembra a Comissão.

Para nos trazer a uma realidade nua e crua recorda-nos que “Somos água e não podemos sobreviver sem ela: 60% do nosso corpo é água (70% do nosso cérebro, 80% do nosso sangue); apenas 3% da água em todo o mundo é potável, menos de 1% é acessível para consumo; uma em 5 pessoas em todo o mundo não tem acesso a água potável. A UNICEF indica que uma criança morre todos os quinze segundos por doenças ligadas à água não potável. Há mais deslocados por causa da água contaminada do que populações que se deslocam por causa das guerras. Em média, cada português gasta por dia o dobro da quantidade máxima de água recomendada pelas Nações Unidas”.

O nosso país está neste momento em situação de seca extrema em grande parte do seu território, uma seca sufocante e maligna, que está e continuará a ter repercussões irreversíveis. “Seremos apenas, e mais uma vez, vítimas de um problema mundial ou podemos lançar uma interpelação entre nós todos e a cada um: “Que fizemos da água de que precisamos para, simplesmente, podermos sobreviver?”

A Comissão Nacional Justiça e Paz propõe que a questão seja colocada no presente: “Que queremos fazer com a água que é nosso bem comum? Governo, responsáveis autárquicos e especialistas nesta matéria têm o diagnóstico feito. Algumas medidas “de recurso” têm sido tomadas. A sociedade civil está alertada para o facto de que temos de repensar e refazer o nosso estilo de vida: poupar, racionalizar e partilhar, reutilizar a água de que dispomos. Um alerta tão veemente pressupõe uma mudança da nossa mentalidade consumista, imediatista e de desperdício, de horizontes estreitos, irresponsável e narcísica”.

E deixa claro que “Precisamos de um olhar global, mas simultaneamente de um agir local, aqui e agora, nas nossas casas, nas escolas, nas comunidades e suas instituições. Precisamos de uma pedagogia [de utilização] da água! Enquanto cidadãs e cidadãos – incluindo crianças, jovens, idosos, nas cidades ou em zonas rurais, em empresas ou em instituições de solidariedade – tomemos em nossos ombros e em conjunto esta urgência, respondendo-lhe com um projeto de cidadania. Reeduquemo-nos uns aos outros porque todos temos iguais responsabilidades, embora seja certo que muitos estão a sofrer mais do que outros. “Todos somos pobres!” afirmou o Papa Francisco há dias”.

A CNJP reconhece os gestos de solidariedade – “individual e coletiva” – perante os desastres ambientais que nos assolam. Mas vem, simultaneamente, interpelar novamente “os cristãos e a sociedade civil: que a Água que nos dá a Vida, humana e espiritualmente, seja por todos nós considerada – mulheres e homens de boa vontade - um bem da Criação que nos foi confiado, limitado e escasso, é certo, mas a que

todos sem exceção temos direito. Que tenhamos Vida para Todos, e uma Vida em Solidária Abundância!”

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