Eurico Carrapatoso desvenda "Salve Regina"

| 2017-10-10

Em entrevista exclusiva à Angelus TV

Eurico Carrapatoso (Foto: Eurico Carrapatoso)

Salve Regina de Eurico Carrapatoso será apresentada em estreia absoluta, no dia 13 de outubro, no concerto de encerramento das Comemorações do Centenário das Aparições em Fátima, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, a partir das 18h30. Um concerto único com interpretação da orquestra e coro da Gulbenkian sob a direção da maestrina Joana Carneiro. 

A Angelus TV solicitou uma entrevista a Eurico Carrapatoso que imediatamente aceitou. Contudo, por razões pessoais, optou por uma entrevista por escrito. Eurico Carrapatoso fala da sua obra e da influência da sua infância sobre a composição de Salve Regina e na sua vida artística. 

 

- A obra Salve Regina será apresentada em estreia absoluta no concerto de encerramento das Comemorações do Centenário de Fátima. O que representa para si?

 EC – É uma distinção, mais uma, que a Igreja, vista agora como instituição cultural e não apenas pastoral, me dirige. Ao arrepio da tendência que se desenha nos últimos tempos no seio de uma instituição que tem vindo a perder terreno na sua dimensão histórica de promotor ou mecenas preferencial das belas artes, das manifestações mais refinadas da erudição, do pensamento e da sensibilidade humana, numa palavra, da subtileza, a Comissão das Comemorações do Centenário de Fátima não deixou os seus créditos por mãos alheias e deu uma prova expressiva daquele papel histórico atrás referido, encomendando várias obras a vários compositores portugueses de primeira importância, de entre os quais rememoro os meus camaradas de armas João Madureira, Alfredo Teixeira, Sérgio Azevedo, Nuno Côrte-Real, Rui Paulo Teixeira e Carlos Marecos. Esta convocação do talento nacional em pleno século XXI significa precisamente aquele lugar que a instituição eclesiástica já ocupou, principalmente no Renascimento e no Barroco, e que nos legou um património sem igual, dada a sua subida dimensão artística e espiritual: um acervo de obras de tantas sensibilidades e de tão múltiplas expressões que ainda hoje arrasta e comove, volvidos tantos séculos, de tal forma é coisa eterna aquilo em que se verteram.

 - Emocionalmente como descreve o processo de composição de Salve Regina?

 EC – Pergunta bem: emocionalmente. Trata-se de emoção. Trata-se de memória. Sou de matriz rural. Nasci e cresci em Alvites (concelho de Mirandela, distrito de Bragança). Recebi uma educação tradicional e católica, no paradigma “Portugal velho” que meus pais e os meus tios tão bem me significaram. Desde cedo que esses valores enxutos, tão matriciais nos ritmos de vida do campo, se entranharam, acabando necessariamente por condicionar a minha própria mundividência. A existência é como uma rocha sedimentar. Reconhecem-se-lhe as várias camadas. Se fizesse um corte transversal para colher uma amostra geológica da minha vida, lá estaria bem patente a camada da minha infância e da minha primeira juventude passadas em Alvites, onde bebi aqueles ritmos, onde me aculturei, com claros vestígios de felicidade e de vibrante entusiasmo. Por outro lado, o contacto diário com a paisagem transmontana, bela e austera ao mesmo tempo, tão bem cantada na poesia de Miguel Torga, ensinou-me os mistérios do tempo-longo, um dos valores que mais prezo, antídoto precioso com que fui vacinado em garoto e que me deixou incólume ao tempo-curto e manhoso da vida nas grandes cidades em que vivo desde as minhas universidades. A minha música significa, desde logo, toda a minha aculturação.

Quando fui contactado no sentido de escrever uma obra coral-sinfónica para celebrar o centenário, ocorreram-me de imediato três elementos estruturantes:

  1. a escolha da oração preferida de minha mãe, Salve Regina, uma escolha instintiva, confesso;
  2. a inspiração directa na devoção e no culto mariano tão sincero e fundo dos meus conterrâneos, naquele ritmo lento e solene atrás do andor de Nossa Senhora, no adro da igreja de Alvites, e de onde me chegam, verdes e frescos ainda, ecos desses cânticos processionais marcados pelo organum espontâneo das terceiras e das quintas paralelas que os ornam e defendem;
  3. por fim, a minha continência ao gesto maravilhoso de D. João IV, o primeiro rei da dinastia brigantina, que ofereceu a coroa portuguesa a Nossa Senhora, proclamando-a padroeira e rainha de Portugal, em Vila Viçosa, naquele dia de Ramos do ano de 1646

- O que nos pode dizer sobre Salve Regina?

EC - A minha música tem, muito precisamente, aqueles três elementos vivificantes dos quais partiu e aos quais chegou: o latim extático do Salve Regina, cintilando mesmo, aqui e acolá, fragmentos do belo hino do séc. XI, vogando ao sabor da doce memória de minha mãe, querida Nuninha, que o cantava tão bem, com os seus olhos extáticos, as suas mãos ogivais apontando ao alto, no céu mariano, a curva gregoriana daquela antiquíssima melodia; um tempo vagaroso e processional, sem pressas quaisquer, projectado numa harmonia que, de tão cíclica, mais se parece verter em coisa hipnótica, como se a música tivesse sido fundida na mesma forja em que o bronze dos sinos da minha aldeia foi forjado: é dali que se decanta o meu som, um som memorial transfigurado pelo efeito Doppler do vento, o vento do meu contentamento; enfim, tudo isto se resume a uma música sóbria, despojada e em absoluto recolhimento, sem a coroa da vaidade, na melhor tradição dos Braganças.

 - Que mensagem nos transmite?

 EC - Paz interior. Pura ataraxia. Tempo processional, sem pressas, numa harmonia cíclica, em absoluto recolhimento: é esse o estado que nos leva mais além. Pergunto-me se não terá sido isso o que a Comissão das Comemorações do Centenário de Fátima não terá tido em mente, vislumbrando a música como veículo único na capacidade de sublimação e de transporte para o incorpóreo, ao lançar o desafio a James MacMillan e a mim próprio, dois compositores tão diversos mas de tal forma unificados no propósito de comemorar tamanha efeméride?

 - Foi surpreendido pelo convite do Santuário de Fátima?

 EC - É sempre uma surpresa recebermos um convite destes, assim único. Um século é uma data redonda, imensa. Celebrá-lo, produz uma revolução coperniciana na nossa cabeça. Tudo ali se projecta na elipse do tempo-longo, dos grandes quadros mentais. E pude sentir a força solidária de uma presença humana grande, antiga e emocionada. As emoções são contagiosas. Não fui apenas eu a escrever esta obra. Há algo que nos escapa, que nos ultrapassa, que é maior que nós. Fui apenas o xamã escolhido: despi-me de preconceitos, paramentei-me com os timbres e com a heráldica do som, pus a suricata empalhada na cabeça, coloquei os dedos na tomada desta electrólise poética e deixei vibrar através de mim todo esse fluxo de doce energia, transmitindo-o no código subliminar da minha sensibilidade, vertendo-o como pude nos grafismos da partitura, claros aqui, iniciáticos acolá. Convoquei tudo e todos no plasma desta experiência: lá está o canto sublimado da memória dos meus pais, dos meus tios, dos meus conterrâneos idos.

 - A motivação religiosa é uma inspiração?

 EC - Na palavra que D. Manuel Clemente me dirigiu na entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, em 2011, no espaço do Santuário de Fátima muito precisamente, e que guardo como um dos cumprimentos mais tocantes e profundos que alguém me significou, disse a dada altura e passo a citar:

-“Conheci" Eurico Carrapatoso há seis anos, quando foi editado o seu Magnificat em talha dourada. Conheci de ouvido, não de olhos, como só agora. E em boa hora o conheci e com tal obra, onde se conjugam sons de hoje e sons de sempre, vozes bíblicas e populares: nós, em suma.

(…) Na sua obra estamos, realmente todos, não menos criativos por nos levarmos na bagagem, não menos universais por continuarmos portugueses, não menos pioneiros por reconhecermos vozes, entre outras inauditas. Reconhecemo-nos em Carrapatoso, mesmo quando nos leva ao desconhecido. Surpreendentemente desvelado, transformando em grande mar e planura extensa as altas serras do seu Trás-os-Montes.”

Como já afirmei ou escrevi em várias ocasiões, o sacro é uma fonte recorrente, fresca e inesgotável. Basta referir três exemplos: aquele que considero ser o meu Opus 1: Ciclo de Natal, de 1991. Este é um tema que recorre na minha escrita, aliás, seja através de composições originais, como no caso referido, onde faço o tratamento dos célebres textos natalícios em latim, à guisa de motete, na depurada forma a-cappella: O magnum mysterium, Puer natus est, Verbum carum factus est e Quem vidistis pastores?, seja na convocação de cantos populares de Natal de todos nós mais ou menos conhecidos, levados ao colo do meu mimo e da minha harmonia. Já vinha compondo desde 1987. Já escrevera, até, música mais façanhuda. Mas neste Op.1, olhando para o presépio, ter-me-ei encontrado como compositor, no registo enxuto da sinceridade. O mestre, a inspiração, é o Mozart do Ave verum, onde a distância que separa a simplicidade do meio da transcendência do fim é tamanha que a coisa mais parece ser do foro de um saber alquímico. Mozart opera ali magia. Comove-nos, sejamos crentes ou ateus. Lembro-me com emoção, a este propósito, do êxtase de Fernando Lopes-Graça a escutar o meu Coral de Letras da Universidade do Porto num concerto realizado na igreja do Foco, no Porto. Fazíamos, nesse concerto, reportório essencialmente seu. Mas quando começámos a cantar aquele licor mozartiano, Lopes-Graça elevou a sua cabeça para o alto e, enquanto as suas sobrancelhas oblíquas pareciam desenhar uma ogiva, os óculos embaciavam-se-lhe de emoção.

O segundo exemplo é a minha primeira obra maior, composta em 1994, com meios sinfónicos: In paradisum, para coro, quarteto vocal masculino e cordas, dedicada à doce memória de minha tia, Irmã Maria de Lourdes, que falecera em total ataraxia na Consoada de 1993. Data providencial, com algo de cíclico: morreu para renascer. A peça, para minha grande alegria, foi na altura, e tem vindo a ser desde então, interpretada em conjunto e na sequência do impalpável Requiem de Fauré. Um pouco na linha desta obra, e citando o mestre francês, esta peça est d'un caractère doux comme moi-même. Fauré, outra das minhas grandes referências, dá-nos uma visão da morte mais introspectiva do que teatral: não o Deus da cólera mas o Deus do amor.

A minha leitura é também assim: íntima e serena. Quando era criança, na fase de aprender as cores, minha mãe confrontou-me com a cor-de-rosa, cuja designação desconhecia. Depois de hesitar um pouco, arrisquei: isso é vermelho devagar. Seguindo este mote, este In paradisum é azul devagar.

O terceiro exemplo, Requiem à memória de Passos Manuel, composto dez anos depois de In paradisum, em 2004, é uma extensão natural desta obra, tendo com ela grandes afinidades. De tempo harmónico tendencialmente lento, que paira, produz uma sensação de textura lisa e fluente. Com excepção do Sanctus, que tem a energia dinâmica de um foguetão, com as quatro tompas de capelo alçado como a naja em registo éclatant, prevalece uma sonoridade vaporosa na orquestração, criando um ambiente asséptico, andrógino e levemente enigmático. No último andamento, após a citação do quadro garrettiano do Vale de Santarém, verdadeiro paraíso terreal, a música faz lembrar um pouco a inquietante imagem de São João Baptista no quadro A Virgem dos Rochedos, de Leonardo, assim indefinida, cheia de mistério, encoberta como está no sfumato dos harmónicos das cordas e no chiaroscuro das trompas mais a harpa. Esta atmosfera vaporosa como que paira na estratosfera, com fragrâncias de ozono.

Poder-se-ia dizer que a minha música, em geral, parte de ideias simples, de processos técnicos claros. A gramática é transparente. A concepção nunca pretende ser alta como o Everest. Nem sequer como a Serra da Estrela. Chega-lhe bem ter a altitude da minha amada Serra de Bornes, Montemel para os amigos: mais pequena, mas minha. Mais do que no tempo-curto das paixões humanas, tento projectar as minhas obras no tempo-longo, naquele tempo que emana do abismo dantesco sobre o Douro no Penedo Durão, ali ao pé de Freixo de Espada à Cinta, ou que ressalta dos magalitos do Cromeleque dos Almendres, à vista de Évora, que estão no mesmo sítio há quatro milénios e lá permanecerão outros tantos, após todos nós – eu, que escrevo, e vós, que ledes - sermos varridos da face da terra, na voragem da morte.  

 - O Culto Mariano é percetível nas suas obras?

 EC – Antes havia o Tríptico Mariano. Agora já posso falar do Políptico Mariano, a minha grande obra sacra, com a junção deste Salve Regina em criação mundial. São quatro peças escritas em momentos diversos da minha vida, e que, no seu conjunto, constituem a obra dilecta da minha criação. O primeiro quadro, Horto sereníssimo, composto em 2000, trata a Anunciação, inspirado nas serenas representações quatrocentistas de Fra’Angelico.

O segundo quadro deste tríptico, Magnificat em talha dourada, escrito anteriormente (em 1998), trata de exultação da Virgem, inspirado na Madonna do pescoço comprido, obra-prima quinhentista de Parmigianino, um colo de inquietante desproporção que só Lhe eleva a santidade.

O terceiro quadro, Stabat Mater, composto em 2008, tratando da Dor, é fortemente inspirado em duas obras: La Pietà Rondanini, a escultura pungente de Michelangelo Buonarroti (ca. 1564), e o dramático escorço Cristo morto (ca. 1500), de Andrea Mantegna.                   

O quarto quadro é este que agora se cria: o meu amado Salve Regina na celebração de uma data sonora como um sino de bronze.

Lisboa, 5 de Outubro de 2017

Eurico Carrapatoso

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