A Paixão de Cristo vista no final do sábado de ramos

| 2019-04-15

Breve reflexão sobre o olhar do “homem das dores”

É este o programa teológico que preside ao filme. Ele centra-se na antiga profecia do Deutero-Isaías e nos seus 4 Cânticos do Servo, à luz dos quais, aliás, tal como dos Salmos 22 e 69, os próprios escritores sagrados do Segundo Testamento leram a Paixão de Cristo.

Os Evangelhos podem ser considerados relatos da Paixão com um longo prólogo. De facto, se é certo que toda a vida terrena de Jesus de Nazaré não é insignificante, também é certo que o seu pleno significado o adquire na Paixão, no sentido global do processo de condenação, morte e ressurreição. O Mistério Pascal de Jesus Cristo constitui o acontecimento central da nossa libertação, não propriamente porque Ele nos tenha resgatado, pagando um preço exigido pelo Pai. Este acontecimento é libertador porque significa a sua total entrega pela humanidade, assumida de forma livre, em solidariedade com as vítimas inocentes de toda a história humana.

Mel Gibson faz-nos assistir às últimas 12 horas da vida de Jesus de Nazaré, com base nos Evangelhos e nas visões místicas de Catarina Emmerich (+ 1824) e de Maria de Agreda (+ 1665). Apresenta-nos a realidade duma crucifixão. Nunca até hoje alguém apresentou de modo tão realista uma crucifixão. Esta trata-se duma instituição com origem no império persa, usada, depois, pelo império helénico e romano. Os judeus conheciam bem os horrores de semelhante instituição, de tal modo que na própria Bíblia quem assim morria era tido por amaldiçoado de Deus, e “não podia permanecer de noite na cruz para não manchar a terra que o Senhor Deus deu em herança a Israel” (Dt 21, 23). A crueza das cenas da crucifixão de Jesus, neste filme, corresponde à crueza da realidade. Assim foi com Jesus como foi com milhares de crucificados no tempo dos persas, gregos e romanos, embora Mel Gibson acentue, de maneira desmesurada, a realidade cruenta de tal Paixão. A realidade do Senhor Crucificado foi pregada pela primitiva comunidade com todo o empenho e força do Espírito, apesar de nem todos a compreenderem: “Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus”

(1Cor 1, 22-24).

Jesus foi julgado pelas autoridades judaicas como blasfemo. Segundo as leis judaicas, os “blasfemos” deviam ser erradicados de entre o povo, mortos por lapidação: “O Senhor falou assim a Moisés: Faz sair o blasfemo para fora do acampamento: todos os que o ouviram imponham as mãos sobre a sua cabeça, e que toda a comunidade o apedreje. (...) Aquele que proferir blasfémias contra o nome do Senhor, será punido com a morte e toda a comunidade o apedrejará. Quer seja estrangeiro quer seja natural do país, se proferir blasfémias contra o nome do Senhor, será morto” (Lev 24, 13-16). Na realidade, havia mais que razões para as autoridades judaicas julgarem Jesus como blasfemo, se confrontado com a ortodoxia da lei judaica. As afirmações de Jesus sobre o sábado, Templo, Moisés, Abraão, perdão dos pecados, comensalidade com pecadores, autoconsciência de Messias e Filho do Altíssimo (Mc 14, 61-62), eram a prova comprovada duma atitude de blasfemo segundo os critérios da ortodoxia judaica. O mesmo aconteceu com Estêvão (Act 7, 54-58).

Debruçar-me-ei agora sobre o filme. No princípio, no Jardim do Getsemani, o demónio tenta Cristo com uma pergunta inevitável: como pode alguém carregar os pecados de todo o mundo? Isso é pesado demais para um só homem. Cristo quase recua no panorama, mas depois prossegue a fazer exactamente isso: carregar os pecados de todo o mundo. O espectador começa aqui a transformar-se em participante, “aquele que viu”, pois não é mais possível ficar passivo às cenas que nos passam diante dos olhos. Há um sentido poderoso, sustentado por todo o filme, de drama cósmico, do qual nós somos parte. Não há espaço para a neutralidade aqui.

Jim Caviezel, um actor de 33 anos (curiosamente as inicias do seu nome são _JC_), consegue transmitir um Cristo fisicamente poderoso que assume o cálice da dor até ao fim. Jesus é preso no local onde orava.

Está presente nesta cena, à primeira vista, um paradoxo. No Jardim das oliveiras há confusão, luta, derramamento de sangue até, Jesus é manietado. Como entender então a pergunta da Mãe de Jesus a Madalena «Porque é que esta noite é tão diferente?» e a resposta «Porque antes éramos escravos e agora somos livres»? Parece uma contradição:

falar de liberdade no momento que o Messias era preso. Não é! Este era o diálogo que dava início à Ceia Pascal dos judeus. Está a começar agora uma nova libertação. Outra presumível contradição é no momento do tradicional “encontro” de Jesus com a _Mãe_. Na verdade Ele renova todas as coisas (cf Ap 21,5), pois abraçara a cruz com carinho no momento em que a recebeu, apesar da zombaria do “mau ladrão” que leva a cruz forçado. Este gesto que demonstra não uma atitude masoquista, mas o carinho com que Ele recebe a cruz, lembrando ao espectador que ninguém Lhe tira a vida, é Ele quem a dá e tem o poder de dar e de a retomar.

A Última Ceia é apresentada através de cenas retrospectivas intercaladas na acção do filme, que aludem ao significado sacrificial e eucarístico do Calvário. Confrontamo-nos com a encíclica sobre a Eucaristia, “Ecclesia de Eucaristia”: S. João Paulo II afirma que Cristo estabeleceu o memorial da sua Paixão e Morte antes de a sofrer, em antecipação do actual sacrifício da Cruz.

A presença de Maria é notória na película. A _Mãe_, interpretada por Maia Morgenstern, uma romena judia que perdeu o avô no Holocausto, tem uma presença poderosa. Ela compreende que chegara a “hora” que Jesus lhe anunciara nas bodas de Caná. É curioso o significado do nome da actriz: “Morgenstern” traduz-se como “Estrela da Manhã”, uma das invocações litânicas de Nossa Senhora. Dizia Santo Anselmo que “sem o Filho de Deus nada poderia existir; sem o Filho de Maria nada poderia ser redimido”. É visível que Maria assume o sofrimento do Filho; torna-se a _Mãe_ daqueles que foram redimidos pelo sangue com que ela é aspergida no alto do Calvário. A presença contínua da _Mãe_ demonstra a devoção católica do realizador. Ela não aparece nos Evangelhos sinópticos, ao contrário de outras mulheres (cf Mc 15, 40-41). A presença da _Mater dolorosa iuxta crucem lacrimosa_, no quarto Evangelho (Jo 19, 25-27) é um episódio teológico e eclesiológico, não da história dos factos. Os olhos católicos do realizador transpõem para o filme a devoção a Nossa Senhora. É o seu olhar que dá força ao seu Filho para o julgamento; são os olhos da _Mãe_ que ajudam a levantar na hora das vergastadas e dão um novo vigor ao seu corpo, já trémulo, para o momento da flagelação; é o amor silencioso da “Mulher” que dá força ao “Aflitíssimo Jesus” (como lhe chamam algumas das orações antigas de piedade) para o momento dos cravos. Maria é aquela que dá o seu _Amén_ à “hora” dolosa de Jesus. Ela é a “Nova Eva” como lhe chama Sto.

Ireneu, porque na cruz saúda o seu Filho crucificado, como “carne da minha carne”, invertendo a saudação que Adão faz a Eva: “Esta é carne da minha carne” (Gn 2,23). E Maria continua: “coração do meu coração”, o que remete para a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. A profecia de Simeão cumpre-se no momento da cruz, de tal modo que ela pede a seu Filho que a deixe morrer com Ele, uma espada de dor trespassava a sua alma. Com ela está o “discípulo amado” que com o olhar poderoso dos seus enormes olhos perseguem e penetram até ao fundo a dor de Cristo. Também está Madalena que, quase sem palavras, transmite o sofrimento de quem ama e sofre a dor daquele a quem ama.

Outra personagem que requer tratamento “especial” é a figura da “serpente antiga” (cf Ap 12,9; 20,2), lida pela comunidade cristã à luz da serpente de Gn 2-3 como uma figura satânica. De acordo com Lc 4,13, o Diabo que tenta Jesus no deserto “retirou-se de junto d’Ele, até certo tempo” (Lc 4,13). Esse é o tempo da agonia no Horto, é a “hora e o poder das trevas” (Lc 22,44.53). O grande inimigo com o qual Jesus tem que se confrontar ao longo do relato cinematográfico é essa “serpente antiga” que perpassa por entre a multidão e que tenta demover Jesus de carregar o pecado da humanidade. Esta serpente, que nunca se aproxima de Maria, é esmagada decididamente por Jesus ao escolher beber o cálice, apresentando-se assim como a descendência da mulher que Gn 3,15 anuncia. É este ser tentador que conduz Judas ao desespero definitivo, mesmo depois do Céu enviar duas crianças para o trazerem ao arrependimento. O pecado desvirtua as realidades, transformando dois seres amorosos, que Jesus enaltecera e convidara a imitar, em seres diabólicos que empurram Judas para o deserto podre, o local do seu suicídio. Ele é o “pai da mentira” (Jo 8,44), por isso o diabo surge com uma criança ao colo. É criança? _Mentira_! As crianças não tem aquele aspecto demoníaco, mas cândido, porque têm um coração puro. Após um longo período de obscuridade (Mt 27,45; Mc 15,33; Lc 23,44), Jesus expira. “Desceu à mansão dos mortos” e é nos “infernos” que o Crucificado vence o Demónio (cf Adolph Geshé). É nesta hora que a “sepente antiga” dá o seu grito desesperado e desaparece. Com a morte de Jesus “tudo está consumado” (Jo 19,30). A antiga criação e as suas maldições estão superadas, tudo é recriado em Jesus, Novo Adão, que dá origem ao novo ser humano espiritual e vivificado (1Cor 15,21-22.45-49).

O actor e realizador de origem australiana foi acusado de introduzir uma excessiva dose de violência na sua construção fílmica.  Está presente nesta obra uma espécie de mecanismo mimético. O linchamento a que Jesus é sujeito tem a sua face visível no pátio de Pilatos, onde a multidão clama “crucifica-O”. René Girard pode ajudar-nos na melhor compreensão deste fenómeno. O episódio pode ser colocado em paralelo com o mimetismo mítico: há um processo que leva à execução e à morte trágica da vítima. Todavia há uma grande diferença: se a mitologia aponta para uma vítima culpada, a mimese bíblica apresenta Jesus como inocente. O bode expiatório (“Le bouc émissaire”, 1982) transforma-se em Jesus Cristo, no Cordeiro de Deus, imolado e inocente.

Os discípulos não resistiram ao mecanismo mimético. O próprio Pedro entra na onda de violência dos perseguidores no Jardim. Mas a verdade é reposta ao terceiro dia. Os discípulos proclamam a inocência de Jesus, destruindo a “ilusão colectiva da vítima  culpada”

(Girard). Apesar de algumas ambiguidades no Primeiro Testamento, em nenhum momento da Sagrada Escritura a execução de uma vítima quer justificar a violência, o que acontece nos relatos míticos.

 

A grandiosidade das cenas em torno da crueza de tanto sofrimento, sangue e martírio, pode conduzir à compreensão de uma teologia martirial, ocultando a realidade viva daquela crucifixão como metáfora viva da obediência, livremente aceite, do Messias, que se entrega ao mistério da salvação segundo o modelo profético do Servo de Deus de Isaías 53. Na verdade, o corpo arruinado de Cristo deve ser contemplado com os olhos do profeta, que descreve o “homem das dores” (Is 8,3) tão ferido que está “irreconhecível”. Pode ser que haja quem atribua ao filme predominantemente uma teologia de satisfação vicária.

Contudo, não se trata desta perspectiva, nem porventura também da teologia do “resgate”, nem da teologia da satisfação da honra ofendida de Deus. Há um momento essencial para a compreensão da soteriologia presente na película e na mente do realizador. Quando Jesus expira, do Alto cai uma lágrima divina. Quando o choro de Deus chega à terra dá-se a comoção cósmica que só Mateus refere (Mt 27,51). Deus não é cúmplice seja de que forma for do martírio de Jesus, pois “Deus amou de tal forma o mundo que lhe deu o Seu Filho único” (Jo 3,16). O próprio Jesus apresenta o seu sofrimento iminente e a consequente tristeza dos discípulos como as dores do parto com vista a um novo nascimento (Jo 16,21) e falou da necessidade de o grão de trigo morrer (Jo 12,24). A cruz , trazida por Jesus e, por vezes, sua transportadora, torna-se a cátedra de Deus no mundo, o púlpito vivo e permanente do Senhor, onde Cristo fala em silêncio. Os anjos no sepulcro vazio lembram às mulheres como Jesus lhes ensinava que “havia de ser entregue às mãos dos pecadores” (Lc 24,7). A teologia que preside à obra de Mel Gibson é certamente uma teologia do sacrifício, mas essa teologia é a do próprio NT, tanto nas suas referências aos salmos e aos Cânticos do Servo, como na epístola aos Hebreus e nos próprios escritos de Paulo (Rm 12,1; 1 Co 10,14-22; 11,24-25; Ef 5,2). Toda a violência presente na tela está do lado do ser humano, não do lado de Deus.

Se ao martírio se dedicam duas horas, chegam dois minutos para lembrar que aquela não foi a última palavra. Um “esvaziamento” do sudário, deixando um sinal evidente para “ver e acreditar” que o condenado triunfou sobre a Morte. A breve cena da ressurreição pode ser inspirada no enigmático sudário de Turim. A sua Morte transformou-se em caminho de salvação, pois Ele assumiu a Paixão de todos os homens ao longo da sua história na terra.

Poderia desenvolver melhor algumas temáticas, mas, após ter vivido este Sábado de Ramos a acolher os meus irmãos no confessionário durante quase todo o dia, quis terminar a jornada a ver o filme que pode ser visto com os olhos da oração e a terminar o dia, partilhando consigo esta meditação!

“Cristo feito pecado” (2Cor 5,21) é o centro do filme, da mesma forma que Aquele “tornado maldição” (Gal 3,13) é o epicentro da nossa vida. Ver este filme às portas da Semana Santa foi enriquecedor.

De modo semelhante, tantas notícias que vemos, lemos e ouvimos ajudam-nos a melhor perceber a continuação da Paixão de Cristo _hoje_. Todas as vítimas inocentes que em tantos lugares do mundo experimentam a violência sem rosto, a desumanidade calculista e fria, o pecado dos homens e todo o seu poder maligno, a morte, que é o “estipêndio do pecado” (Rm 6,23) Os inocentes são aqueles de quem Jesus dissera que o que fizéssemos a um dos mais pequeninos seria a Ele mesmo que o faríamos (cf Mt 25, 40).

 (P. Paulo Emanuel Martins Dias/Sábado de Ramos de 2019)

 

 

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