Metade dos conventos e mosteiros da cidade estão desocupados ou em risco de degradação

| 2019-05-16

Alerta marcou apresentação do projeto «Open Conventos» que envolve o setor de Turismo do Patriarcado

Das 59 casas religiosas, mosteiros e conventos presentes na cidade de Lisboa, cerca de metade estão hoje em risco elevado de degradação devido a situações de abandono, de falta de uso ou de ausência de obras de conservação e restauro.

Este foi um dos alertas que saiu da apresentação esta quarta-feira, no Convento de São Pedro de Alcântara, da iniciativa ‘Open Conventos’.

Um projeto que pretende abrir os monumentos da cidade ao público em geral, e sensibilizar para a sua preservação, e que envolve o Patriarcado de Lisboa, a Câmara Municipal, a Santa Casa da Misericórdia e a Universidade Nova.

“O património tem que ser usado, tem que ser fruído, porque quando está fechado e ninguém o usa a sua degradação ocorre muito mais rapidamente. E muitas vezes basta apenas uma coisa, a porta estar aberta, ser conhecido, ser visitado, e aquele espaço ganha logo outro dinamismo”, frisou José Manuel Pimenta, do setor Turismo do Patriarcado de Lisboa, em declarações aos jornalistas.

O projeto tem início no dia 23 de maio às 18h00, na igreja de São Vicente de Fora, com um concerto de órgão de Sérgio Silva, seguido de um debate aberto ao público intitulado ‘O que fazer com os Conventos de Lisboa?’.

Na mesa, moderada pelo jornalista José Pedro Frazão, da Renascença, estarão Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa; e Raquel Henriques da Silva, da Universidade Nova de Lisboa.

Também o padre António Pedro Boto, da Direção Cultural do Patriarcado de Lisboa; Margarida Montenegro, diretora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e João Carlos Santos, subdiretor da Direção Geral do Património Cultural.“Hoje continuam a haver imensos espaços conventuais que estão desabitados. A grande pergunta de fundo é que usos queremos dar a estas estruturas? E essa conversa vai ser entre a mesa e o público que estará presente”, explicou Margarida Montenegro, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Além de querer prevenir a degradação dos conventos e monumentos, o objetivo é também garantir que a sua reconfiguração futura não coloque em causa todo um legado histórico e espiritual.

Para Margarida Montenegro, “com certeza que se vão levantar imensas questões, como por exemplo se devem existir limites aos usos de um espaço que foi conventual, isto é, a definição de critérios éticos para esses usos?”

“Outra coisa é se essas intervenções deverão preservar a memória material e imaterial, a parte espiritual, religiosa, desses locais”, admitiu aquela responsável.

A iniciativa ‘Open Conventos’ prevê ainda nos dias 24 e 25 de maio a abertura ao público de 26 monumentos e conventos da cidade de Lisboa, com propostas de itinerários, visitas guiadas orientadas por diversos especialistas em património cultural e religioso e visitas livres.

O leque de estruturas a conhecer integra edifícios bem conhecidos do público em geral, mas que nem todas as pessoas sabem que foram um dia ‘casa’ de uma ordem religiosa.

Como o Mosteiro de São Bento da Saúde, que alberga atualmente a Assembleia da República; o Convento de Santo Alberto, que acolhe o Museu Nacional de Arte Antiga; e o Convento do Espírito Santo, onde estão os Armazéns do Chiado.

Nos percursos estarão também vários monumentos religiosos que hoje vivem na indefinição, por terem sido total ou parcialmente desocupados, ou por necessitarem de intervenção urgente.

Um destes casos diz respeito à igreja do Mosteiro do Santíssimo Sacramento, na Paróquia de Santa Catarina, no Bairro Alto.

“Uma igreja com um acervo patrimonial do mais extraordinário da cidade de Lisboa”, destacam os promotores do projeto ‘Open Conventos’, mas que está hoje em risco devido às constantes infiltrações de água que têm origem na cobertura do templo, com as chuvas.

Em causa está por exemplo um dos ex. libris da igreja de Santa Catarina, todo o trabalho em estuque da autoria do escultor italiano João Grossi.

“Os conventos sobreviveram já a tantas vicissitudes, sofreram com a expulsão das Ordens Religiosas, sofreram com o terramoto de 1755, e era bastante triste se em pleno século XXI se perdesse esta memória por incúria ou por desleixo”, sustentou José Manuel Pimenta, do setor de Turismo do Patriarcado de Lisboa.

Já a arquiteta Hélia Silva, da Direção de Cultura da CM de Lisboa, que orientará algumas das visitas aos conventos e mosteiros, realçou que, entre os casos de estruturas religiosas em risco, “o grau de degradação é muito variável”.

“Houve muitos que foram parcialmente demolidos aquando da extinção das Ordens Religiosas (1834), e que depois tiveram usos que não eram os adequados. Os conventos que estavam com os militares são aqueles que estão mais bem conservados, na sua maior parte”, indicou a mesma responsável.

Existem depois outros conventos e mosteiros “que estão abandonados”, como por exemplo “o Convento de Arroios, um edifício construído no princípio do século XVIII, que aguentou o terramoto de 1755, mas está vazio há 15 anos”.

“Ninguém protege aquilo que não conhece, e nós estamos a dar a conhecer para toda a gente se preocupar e toda a gente proteger um património que é de todos e é da cidade”, completa Hélia Silva.

As visitas dos dias 24 e 25 de maio contam com a colaboração de cerca de 100 voluntários, que prestarão ao público todo o apoio logístico necessário.

No caso das visitas individuais aos monumentos, ou de participação mais individual, as pessoas podem contar com o recurso do aplicativo para dispositivos móveis do Turismo do Patriarcado, para Android e IOS.

Nesta ferramenta estão identificados os conventos integrados no projeto e qualquer pessoa que tenha a app instalada ao clicar no monumento que quiser visitar obterá as orientações necessárias para lá chegar.

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